As eleições e a pobreza de propósito

 Arion Louzada

Há países pobres porque lhes faltaram recursos, território, estabilidade geográfica ou oportunidade histórica. O Brasil conseguiu façanha mais sofisticada: reuniu extraordinária abundância material e, ainda assim, habituou-se a administrar a própria insuficiência.

Poucas nações receberam combinação comparável de território, água, energia, terras agricultáveis, biodiversidade, minerais, petróleo, capacidade agropecuária e dimensão de mercado interno. A isso se acrescenta uma população numerosa, uma economia diversificada e uma sociedade que, apesar de todas as adversidades, demonstrou repetidamente capacidade empresarial, científica, tecnológica e cultural.

O problema brasileiro, portanto, não pode ser explicado pela indigência dos meios. Está, em larga medida, na pobreza dos arranjos que deveriam convertê-los em prosperidade duradoura.

O Brasil não sofre de escassez de futuro. Sofre da incapacidade de chegar até ele.

Esse é talvez o aspecto mais constrangedor de nossa história econômica. O país progride, mas progride aos soluços. Setores inteiros moderniza enquanto conserva estruturas incompatíveis com uma economia moderna. Ilhas de excelência mundial produz cercadas por vastidões de baixa produtividade. Exporta alimentos, minérios, petróleo, aeronaves, serviços e conhecimento, mas continua incapaz de assegurar, em escala correspondente às suas potencialidades, educação de qualidade, infraestrutura eficiente, segurança jurídica simples, produtividade elevada e um Estado financeiramente sustentável.

Não se trata de negar avanços. Seria intelectualmente desonesto fazê-lo. O Brasil construiu instituições relevantes, consolidou uma democracia constitucional, reduziu importantes formas de pobreza, desenvolveu uma agricultura tecnologicamente sofisticada e dispõe de setores empresariais competitivos. O problema é justamente outro: o resultado agregado continua menor do que o país que o produz. A distância entre potencial e realização tornou-se uma espécie de instituição nacional.

O centro da enfermidade brasileira não está apenas no tamanho do Estado. A discussão reduzida a “Estado grande” contra “Estado pequeno” pertence ao repertório infantil de uma política que prefere palavras de ordem a problemas difíceis. A questão decisiva é a qualidade do Estado, a composição de suas despesas, sua capacidade de estabelecer prioridades e a relação entre aquilo que arrecada, aquilo que promete e aquilo que efetivamente entrega. O orçamento brasileiro tornou-se extraordinariamente rígido. Direitos, vinculações, transferências, benefícios, despesas previdenciárias, pessoal e inúmeras obrigações previamente estabelecidas comprimem severamente a capacidade de escolha dos governos. O resultado é uma arquitetura paradoxal: o Estado movimenta quantidades gigantescas de recursos e, ao mesmo tempo, frequentemente afirma não possuir dinheiro suficiente para investir.

O que temos é um Estado musculoso para gastar e anêmico para transformar. Essa contradição cobra preço elevado. Quando a trajetória da dívida suscita dúvidas, aumenta o prêmio exigido pelo capital. Juros elevados encarecem crédito, investimento e financiamento público. Investimento menor compromete produtividade. Produtividade baixa limita o crescimento. Crescimento medíocre dificulta o ajuste das contas públicas. E a deterioração fiscal, por sua vez, realimenta a necessidade de juros elevados. A roda gira. O país permanece no lugar.

Não há alquimia capaz de abolir indefinidamente essa aritmética. Uma sociedade pode discutir legitimamente quem deve contribuir mais, quais despesas devem ser preservadas, onde cortar, quanto investir e como proteger os vulneráveis. O que não pode fazer é revogar por votação as identidades elementares da matemática.

Quando despesas permanentes crescem sistematicamente sem financiamento compatível, alguém paga a diferença. Pode ser o contribuinte, por impostos; o consumidor, pela inflação; o tomador de crédito, pelos juros; o beneficiário futuro, pela redução de serviços; ou a geração seguinte, pela dívida. A conta pública possui uma característica desagradável: aceita adiamento, mas não aceita desaparecimento.

A questão econômica encontra a política precisamente nesse ponto. Às vésperas das eleições gerais de 2026, marcadas para 4 de outubro, o Brasil não enfrenta apenas a escolha periódica de governantes e parlamentares. Novamente enfrenta a possibilidade de discutir, ou de evitar discutir, que espécie de país pretende financiar nas próximas décadas.

O sistema político brasileiro desenvolveu extraordinária habilidade para transformar eleição em plebiscito emocional e extraordinária dificuldade para transformá-la em discussão sobre produtividade, qualidade do gasto, educação, infraestrutura, ambiente regulatório, equilíbrio intergeracional, eficiência administrativa e crescimento de longo prazo.

As campanhas preferem o personagem ao programa, o adversário a ser destruído ao problema a ser resolvido, a frase que circula em segundos à reforma que exige vinte anos. Nesse ambiente floresce uma das mais antigas deformações da política brasileira: o populismo fiscal e social em suas diferentes roupagens ideológicas. Os vocabulários, as bandeiras, os inimigos e as liturgias mudam; a tentação de prometer benefícios presentes transferindo silenciosamente seus custos para contribuintes futuros permanece.

Uma corrente oferece o Estado como distribuidor inesgotável de recursos. Outra promete eficiência quase milagrosa sem explicar suficientemente quais interesses concretos enfrentará para produzi-la. Há quem ofereça nostalgia, quem venda ressentimento, quem comercialize medo e quem distribua indignação em escala industrial. Todos conhecem o valor eleitoral do benefício imediato, poucos encontram vantagem política em anunciar a fatura.

Compreensível. Reforma estrutural possui uma inconveniência eleitoral: seus custos costumam chegar antes de seus benefícios. O privilégio eliminado identifica imediatamente quem perdeu; o ganho de produtividade que beneficiará milhões daqui a dez anos não possui rosto, sindicato, gabinete, associação ou grupo de pressão. Daí uma das tragédias silenciosas da democracia brasileira: o futuro não possui bancada parlamentar.

A precariedade do debate é agravada por uma estrutura partidária que frequentemente opera menos como sistema organizado de concepções nacionais do que como mecanismo de acesso ao Estado. Naturalmente existem diferenças ideológicas reais, programas distintos e parlamentares comprometidos com convicções legítimas. Generalizar seria tão simplório quanto negar o problema. Mas uma parcela relevante da vida partidária brasileira continua marcada por personalismo, fisiologia, alianças de conveniência, ocupação de espaços administrativos e negociação permanente de recursos orçamentários. A sigla, em muitos casos, não organiza uma visão de país. Organiza uma posição na mesa. Então forma-se um curioso mercado político no qual princípios podem revelar elasticidade surpreendente, adversários de ontem tornam-se aliados de hoje e incompatibilidades proclamadas solenemente durante a campanha evaporam diante das necessidades de governabilidade.

A democracia brasileira parece possuir, por vezes, excesso de política e escassez de política pública. O cidadão é convocado periodicamente a escolher entre narrativas grandiosas enquanto parte significativa da engrenagem permanece protegida da escolha. O orçamento já chega comprometido. Interesses organizados defendem seus territórios. Corporações preservam vantagens. Grupos econômicos procuram benefícios. Governos distribuem recursos. Congressistas disputam parcelas. Governadores reivindicam compensações. Municípios exigem transferências. Todos possuem razões. O problema é que a República não pode ser apenas a soma das razões particulares.

Quando cada grupo consegue constitucionalizar, legalizar, indexar ou politicamente blindar sua própria reivindicação, o orçamento deixa progressivamente de ser instrumento de planejamento coletivo e transforma-se em arqueologia de compromissos acumulados. E o investimento, justamente aquilo que poderia ampliar a riqueza futura, torna-se uma das primeiras vítimas.

Nesse cenário, a corrupção produz dano muito maior do que o valor diretamente desviado. Seu efeito mais corrosivo é institucional. A corrupção ensina ao cidadão que a regra pode ser negociada, que a proximidade do poder possui valor econômico, que determinadas portas se abrem não pela excelência, mas pelo relacionamento; não pela concorrência, mas pelo acesso; não pelo mérito, mas pela influência. Quando essa percepção se generaliza, o prejuízo deixa de caber numa planilha policial. Surge o cinismo. E o cinismo é um imposto invisível cobrado sobre a democracia. O cidadão que conclui que “todos são iguais” deixa de exigir diferenças de conduta.

O eleitor convencido de que toda política é necessariamente corrupta torna-se menos sensível à corrupção concreta. A degradação de uns passa a absolver preventivamente os outros. Cada campo político constrói indulgência para os seus e indignação para os adversários. A ética pública converte-se, então, em arma de uso seletivo. Talvez essa seja uma das formas mais sofisticadas de decadência institucional: não quando desaparecem as normas, mas quando cada grupo exige sua aplicação apenas contra o outro.

A corrupção ainda mais profunda do que aquela tipificada pelo Código Penal é a corrupção da prioridade pública. Um país que convive durante décadas com educação básica insuficiente, saneamento incompleto, infraestrutura deficiente, baixa produtividade, desigualdade persistente e sistema tributário historicamente complexo não pode considerar normal que sua energia política seja consumida incessantemente por disputas de curto prazo.

Neste nosso país, cada geração anuncia a chegada do futuro; cada geração inaugura novamente o futuro que a anterior já havia inaugurado. O Brasil torna-se, assim, especialista em primeiros passos. O que falta são os quilômetros seguintes. Reformas são anunciadas como acontecimentos definitivos e, pouco depois, descobre-se que outra reforma será necessária para corrigir a anterior. Programas nascem provisórios e envelhecem permanentes. Benefícios excepcionais adquirem clientela. Incentivos temporários conquistam eternidade. Despesas emergenciais incorporam-se à paisagem.

Enquanto isso, produtividade e investimento, duas palavras pouco aptas a discursos inflamados, determinam silenciosamente quanto uma sociedade poderá consumir, distribuir e financiar amanhã.

Não existe política social sustentável sem riqueza sendo criada. Também não existe desenvolvimento digno se a riqueza produzida convive indefinidamente com miséria evitável, duas proposições que deveriam ser complementares. Em nosso debate, porém, são frequentemente apresentadas como inimigas.

A eleição de 2026 oferece-nos um espelho. Não cabe esperar de uma eleição a cura instantânea de deformações acumuladas durante décadas. Tampouco seria intelectualmente sério atribuir a um único governo, partido ou campo ideológico a autoria exclusiva de problemas cuja formação atravessa sucessivas administrações e diferentes maiorias parlamentares. A responsabilidade deve ser historicamente compartilhada e precisamente por isso é mais grave. A Nação precisa decidir se continuará utilizando eleições para renovar personagens dentro de uma estrutura essencialmente preservada ou se começará a exigir respostas verificáveis para perguntas elementares.

Como estabilizar a dívida sem desmontar a proteção aos mais pobres? Como reduzir a rigidez orçamentária? Como elevar o investimento? Como aumentar a produtividade? Como melhorar dramaticamente a educação básica? Como reduzir privilégios sem transformar reforma em perseguição corporativa? Como simplificar o Estado sem destruí-lo? Como preservar políticas sociais sem converter responsabilidade fiscal em palavrão? Como impedir que responsabilidade fiscal, por sua vez, seja utilizada como pretexto automático para sacrificar justamente quem possui menor capacidade de defesa? Como aumentar concorrência, inovação e segurança jurídica? Como construir infraestrutura compatível com um país continental? Como impedir que recursos públicos sejam capturados por interesses privados, partidários, corporativos ou eleitorais?

Essas perguntas são menos excitantes do que o espetáculo da polarização; contudo, têm uma superioridade decisiva: continuarão existindo depois que a eleição terminar.

O Brasil não necessita de outro mito salvador. Nem de um homem providencial. Nem de uma ideologia providencial. Necessita de instituições capazes de sobreviver aos homens, de políticas capazes de atravessar governos e de uma cultura política suficientemente adulta para compreender que desenvolvimento não resulta de proclamação. Recursos naturais ajudam. Petróleo ajuda. Agricultura competitiva ajuda. Energia renovável ajuda. Minérios estratégicos ajudam. Mercado interno ajuda. Mas, nada disso substitui produtividade, capital humano, estabilidade institucional, responsabilidade fiscal, infraestrutura, inovação, concorrência e educação.

A natureza pode entregar a matéria-prima da prosperidade. Não entrega a prosperidade pronta. Talvez esteja aí a ironia mais amarga do Brasil contemporâneo. Somos suficientemente ricos para conhecer aquilo que poderíamos ser e suficientemente disfuncionais para continuar adiando aquilo que sabemos precisar fazer. O verdadeiro drama nacional não é a ausência de oportunidades. É o desperdício reiterado delas.

As eleições passarão. Os discursos serão esquecidos. Coligações improváveis serão novamente justificadas em nome de alguma emergência nacional. Antigos inimigos descobrirão afinidades administrativas. Promessas serão reinterpretadas. O orçamento continuará exigindo escolhas que a retórica tentou esconder. E a economia, indiferente à eloquência dos palanques, continuará submetida àquilo que nenhuma demagogia conseguiu revogar: produtividade, investimento, confiança, dívida, juros, poupança, educação e tempo.

Todos nós podemos continuar discutindo quem ocupará o poder. Em algum momento teremos de discutir, com a mesma paixão, para que serve o poder. Porque a pergunta decisiva de 2026 talvez não seja qual grupo governará o país pelos quatro anos seguintes, mas sim se o país continuará sacrificando décadas seguintes para tornar politicamente confortável o próximo mandato.

Um território extraordinariamente favorecido pode sobreviver durante muito tempo abaixo de suas possibilidades. À mediocridade relativa, naturalizar o desperdício, transformar privilégios em direitos adquiridos e confundir sobrevivência com desenvolvimento podemos acostumar-nos; podemos até chamar isso de normalidade. Mas não podemos fazê-lo indefinidamente sem pagar o preço.

O Brasil faz muito deixou de ter o direito de atribuir seu atraso à falta de recursos. Sua pobreza mais persistente é outra: a pobreza de propósito nacional.