Um grupo interdisciplinar de docentes e pesquisadores de diferentes partes do Brasil se reuniu no centro Maria Antonia, na USP, no mês de abril, para discutir o ambiente de exigência de conformidade ideológica, autocensura e intolerância ao dissenso que prevalece hoje nas instituições públicas de ensino superior no Brasil. Esse grupo apresenta à comunidade acadêmica este manifesto pedindo iniciativas concretas de promoção do pluralismo e da liberdade acadêmica para enfrentar a crise de reputação que afeta nossas instituições.
As instituições públicas de ensino superior assistem a uma escalada de conflitos. Multiplicam-se abaixo-assinados, notas de repúdio e campanhas de denúncia em redes sociais dirigidas contra docentes, pesquisadores, técnicos e estudantes. Eventos são cancelados ou interrompidos, aulas são boicotadas, participantes são intimidados e expostos publicamente. Os episódios mais graves envolvem agressões físicas, necessidade de escolta e interrupção forçada de atividades acadêmicas.
Pesquisa realizada pela More in Common com a Quaest, em 2025, mostra a abrangência das repercussões desses conflitos na sociedade brasileira. Cresce a percepção de que as universidades públicas deixaram de ser espaços de produção de ciência e conhecimento e foram capturadas pela disputa ideológica: 59% dos brasileiros confiam pouco ou não confiam na universidade pública; 51% consideram que as universidades privadas são melhores do que as universidades públicas e 54% acreditam que a universidade pública promove mais ideologia do que ensino de qualidade.
Essa percepção é distorcida. As universidades públicas seguem sendo responsáveis por formação profissional e produção científica e tecnológica de excelência. A percepção capturada na pesquisa reflete, porém, um problema real: a dificuldade que as universidades têm enfrentado em garantir o pluralismo e sustentar a convivência entre perspectivas divergentes — o que alimenta o entendimento de que se dedicam mais à militância política do que ao ensino e à pesquisa.
Quando faltam mecanismos consistentes de proteção ao dissenso e de garantia do pluralismo e quando a resposta institucional oscila ao sabor de pressões conjunturais, acusações de parcialidade ganham força, comprometendo a legitimidade pública da universidade e as próprias condições de produção do conhecimento.
O progresso científico e intelectual depende de comunidades heterogêneas e livres de coerção, nas quais diferentes visões de mundo podem interagir e debater abertamente. Sem liberdade para o dissenso, o debate acadêmico entra em declínio e o horizonte científico e intelectual de toda a sociedade é empobrecido. Por isso, instituições universitárias devem ser espaços de convivência entre diferentes correntes teóricas e metodológicas, com ideias informadas por visões de mundo progressistas e conservadoras, liberais e socialistas, defensoras de reformas radicais e guardiãs da tradição.
Quando a falta de pluralismo não é enfrentada internamente, a universidade fica exposta a intervenções externas que tendem a agravar o desequilíbrio em vez de corrigi-lo. Nos Estados Unidos, essa omissão inspirou tentativas de restringir conteúdos curriculares, reconfigurar ou extinguir departamentos e interditar agendas de pesquisa. No Brasil, registram-se pressões na mesma direção: tentativas de proibir disciplinas e cursos, questionamentos legislativos sobre conteúdos ensinados, investigações por órgãos públicos e campanhas políticas e midiáticas voltadas a constranger docentes. Em todos esses casos, o pêndulo se desloca na direção oposta, trocando um tipo de desequilíbrio por outro.
Afirmamos, porém, que há um caminho alternativo, que passa necessariamente pela responsabilidade ativa das próprias administrações universitárias. Esse caminho se inscreve nos marcos do Estado Democrático de Direito: a defesa do pluralismo e da liberdade acadêmica proposta aqui pressupõe o respeito às instituições democráticas e às garantias constitucionais.
Para que essas instituições recuperem a confiança da sociedade e cumpram plenamente sua missão, é preciso que se comprometam com três pilares fundamentais: neutralidade institucional, liberdade acadêmica e pluralismo.
Neutralidade institucional
As universidades devem ser fóruns plurais onde diferentes ideias entram em disputa. Para que isso aconteça, a instituição não deve confundir suas funções com o ativismo político. O princípio da neutralidade institucional estabelece que universidades devem evitar adotar posições oficiais sobre questões políticas ou ideológicas. Isso não restringe a liberdade individual de docentes e pesquisadores, que seguem livres para expressar suas convicções pessoais e defender posições públicas — em seu próprio nome, não em nome da instituição.
Quando a universidade adota oficialmente uma visão de mundo determinada, ela estabelece uma ortodoxia oficial, sinalizando para a sua comunidade que visões divergentes não são bem-vindas. Isso aliena quem discorda da posição oficial, leva à autocensura e desencoraja o debate livre de ideias.
Ao ceder à pressão para emitir declarações sobre eventos políticos ou sociais, as universidades também se tornam vulneráveis a grupos de pressão internos e externos. O resultado é que as instituições passam a ser vistas como entidades ideológicas e partidárias, em vez de centros plurais de produção intelectual e científica.
A neutralidade institucional comporta uma exceção: a universidade deve se posicionar quando a questão afeta diretamente a liberdade acadêmica, a autonomia universitária ou sua capacidade de cumprir sua atividade-fim — a exemplo de leis que restrinjam áreas de pesquisa ou comprometam seu financiamento.
O princípio da neutralidade institucional se aplica à gestão de convidados externos. Receber um político de esquerda ou um líder de direita não implica aderir às suas ideias, mas ceder espaço para que sejam debatidas. A universidade, portanto, não deve afirmar que convidados representam seus valores.
Para manter o pluralismo, as universidades devem operar sob regras isonômicas, mantendo suas portas abertas a todos. Se uma instituição recebe apenas representantes de um lado do espectro político, ela passa a ser percebida como um instrumento de ativismo, perdendo legitimidade pública. Essa postura exige firmeza e proatividade: a neutralidade institucional demanda que a universidade mantenha um evento com um convidado polêmico mesmo diante de protestos. Cancelar um evento devido ao posicionamento ideológico do palestrante é assumir uma posição política, sinalizando que apenas certas ideias têm permissão para circular no campus.
Liberdade acadêmica
A proteção à liberdade acadêmica exige o compromisso de que ninguém será sancionado por suas opiniões — seja por pressões externas, seja por grupos de pressão internos à própria instituição. A função da universidade é garantir a livre circulação de ideias, não proteger membros da comunidade contra o desconforto intelectual provocado pelo contraditório. Pesquisa do Instituto Sivis, com amostra representativa dos estudantes brasileiros de ensino superior, mostrou que 48% deles afirmam ter se autocensurado, evitando debater assuntos controversos em sala de aula.
Para evitar que a instituição seja capturada por ortodoxias, é necessário criar uma cultura organizacional pró-dissenso. Isso implica regras e protocolos que diferenciem claramente o direito legítimo ao protesto da prática ilegítima de impedir a expressão alheia. Grupos organizados não podem deter poder de veto sobre quem tem permissão para ser ouvido. A universidade deve manter-se firme contra quaisquer formas de perseguição, assegurando que o ambiente acadêmico não imponha falsos consensos por meio da coerção.
Condutas discriminatórias, tipificadas na legislação brasileira, devem ser apuradas e punidas pelos canais competentes. Isso, porém, não se confunde com a expressão de posições críticas sobre movimentos sociais e políticas públicas — inclusive aquelas voltadas à promoção da igualdade. Enquadrar argumentos acadêmicos como ofensas morais para silenciá-los é prática incompatível com a liberdade acadêmica.
Diante de conflitos ou disputas em torno da liberdade acadêmica, a instituição deve adotar procedimentos de arbitragem transparentes e previsíveis. É essencial que a universidade se abstenha de emitir posições públicas, notas de repúdio ou condenações sumárias antes que ocorra uma apuração rigorosa, técnica e isenta dos fatos, garantida a ampla defesa. Ao ceder à urgência de dar respostas imediatas às redes sociais ou a movimentos sociais, a administração corre o risco de violar o devido processo e sinalizar parcialidade. Por isso, a universidade não deve admitir julgamentos liminares e precipitados.
Além disso, a universidade deve tomar providências, de acordo com suas competências, para garantir a preservação dos direitos constitucionais dos acusados enquanto a apuração dos fatos não é concluída. Quaisquer medidas administrativas devem seguir os devidos trâmites de apuração e responsabilização. A imparcialidade e o silêncio estratégico antes da conclusão das apurações são salvaguardas necessárias para impedir que a pressão política subverta a justiça e a pluralidade intelectual no campus.
Pluralismo
A defesa do pluralismo deve se estender aos currículos, aos programas de ensino e à pesquisa. A universidade deve adotar um ethos institucional que incentive o ensino das posições em disputa nas controvérsias e a análise de perspectivas divergentes em temas sensíveis. Quando professores selecionam e apresentam uma única visão de mundo, eles privam os estudantes da oportunidade de desenvolver fluência nas ideias acadêmicas que efetivamente dividem a sociedade. O pluralismo não significa que qualquer afirmação é válida. O questionamento a consensos estabelecidos deve ser mediado pelo método científico e pela argumentação honesta.
Ensinar obras influentes sem apresentar seus críticos mais qualificados cria uma falsa impressão de consenso — onde ele, de fato, não existe. Uma universidade plural deve se esforçar para abarcar os dissensos nos seus currículos e programas de ensino. Isso permite que os alunos se familiarizem com as escolas de pensamento e se tornem capazes de analisar criticamente os seus méritos e as suas falhas.
O pluralismo exige o desenvolvimento de uma cultura de discordância construtiva: a capacidade de engajar o dissenso de forma rigorosa, respeitosa e produtiva. Isso não significa eliminar o conflito, mas qualificá-lo, reconhecendo-o como motor do avanço intelectual, desde que orientado por normas de argumentação, escuta e crítica mútua.
Ao construir currículos que reflitam a diversidade real do pensamento humano, a universidade protege-se de acusações de viés e cumpre seu dever de formar cidadãos aptos a navegar em um mundo complexo.
As recomendações aqui apresentadas inspiram-se em iniciativas de outros países que enfrentam desafios semelhantes e sugerem um caminho centrado na neutralidade institucional, na proteção ao dissenso e na valorização do pluralismo curricular.
A universidade pública é um patrimônio dos brasileiros, que a sustentam com seus impostos e depositam nela suas esperanças para o futuro. Quando se instala a percepção de que foi capturada por grupos ou ideologias, a universidade se distancia dos cidadãos e perde legitimidade.
Ao assegurar que visões divergentes tenham lugar no campus, as instituições públicas de ensino superior reafirmam seu compromisso com a ciência e o conhecimento — e resgatam a autoridade necessária para serem, novamente, espaços de confiança e liderança intelectual para todos os brasileiros.
Assine o Manifesto pelo pluralismo e pela liberdade acadêmica.
Disponível em: https://pluralismoacademico.org/