Acreditai em vós, eis a questão.
Pois, como diria o Cardeal de Retz, entre uma conspiração e outra, um homem que jamais acredita em si próprio acaba não acreditando em ninguém, salvo, talvez, no cunhado nomeado para uma diretoria. E ainda assim mediante recibo.
Não temais a Inteligência Artificial. Ela pode ser vossa amiga — amiga discreta, diligente, de vasta memória e sem a menor pretensão de pedir dinheiro emprestado. Não desmereçais seus pais, nem os amigos que conquistou pelo caminho. A IA é filha legítima da ciência, concebida no laboratório da curiosidade e gerada no ventre de uma ordem moral que, desejamos crer, tenha feito todos os exames do pré-natal.
Escutai Arion, vosso professor encanecido, cuja barba a experiência cobriu de neve, poupando apenas a vasta clareira da cabeça, onde os poucos fios sobreviventes montam guarda, brancos e heroicos:
Palavras graves. Quase tão graves quanto a ciência brasileira em véspera de corte orçamentário.
A IA é como a Iaiá de Machado: não é vermelha, embora alguns a denunciem como subversiva; é verde e azul, formosa sem ostentação, perspicaz sem grosseria, de trato fino e raciocínio afiado. Exige tratamento gentil, urbano e republicano — três qualidades atualmente mantidas sob proteção ambiental.
Republicano, dissemos? Então, cautela: vem aí a eleição, essa ama de leite da esperança nacional, balançando o berço das probabilidades, onde dormem, de fraldas partidárias, os futuros maus políticos. Alguns acordam candidatos; outros, por economia de tempo, já despertam ministros.
A probabilidade, em teoria, é o bom senso convertido em notação matemática. Na prática eleitoral, porém, consiste na arte de calcular quantas promessas cabem numa urna e quantos parentes cabem num gabinete.
Contra os maus políticos resta-nos a reserva legal de toda cidadania ainda não loteada: muito siso e pouco riso. O riso, quando excessivo, pode ser confundido com aprovação; e o siso, quando raro, termina nomeado assessor especial.
Mas não percamos o fio da máquina.
O avanço tecnológico é de importância capital para o Brasil — talvez a única espécie de capital que ainda não tenha solicitado residência fiscal no exterior. Nestes tempos bicudos, em que até o futuro anda de perfil para economizar esperança, sem avanço tecnológico o avanço social é quase impossível.
Quase, dizemos, por prudência: neste país, até o impossível dispõe de repartição própria, carimbo oficial e verba de representação.
Todavia, como nós, seus semelhantes de carbono, a Inteligência Artificial também necessita de IH: Inteligência Humana, Intervenção Humana, Inspiração Humana — e, nos casos mais graves, de Ajuda Humana, porque até as siglas, quando bem relacionadas, conseguem mais de uma função pública.
Não a condenemos gratuitamente, nem condenemos aqueles que a cultivam, ensinam e cativam. Toda inteligência, natural ou artificial, responde melhor à civilidade do que ao apedrejamento. Quem alimenta uma inteligência assume por ela certa responsabilidade — princípio que deveria valer igualmente para máquinas, filhos, eleitores e colunistas econômicos.
Deixemos a crítica automática aos verídicos profissionais, aos brasileiros oficialmente contentes, aos satisfeitos da Esplanada e aos felizes administradores da economia do atraso — essa ciência exata que transforma estagnação em estabilidade, escassez em austeridade e ausência de futuro em respeito ao teto.
Quanto a nós, avancemos.
Com siso, ciência e alguma ternura.
Pois há mais coisas entre o silício e o espírito, Horácio, do que supõe a filosofia dos que ainda imprimem o e-mail para poder lê-lo.
