As tarifas de Donald prejudicaram, em vez de proteger, as fábricas dos EUA

A retração da indústria dos Estados Unidos chega ao terceiro ano consecutivo, e as empresas seguem demitindo, contrariando a promessa de que empregos e fábricas retornariam aos EUA “com força total”.

The Economist 

Jan 6th 2026 


As explicações do governo Trump, no ano passado, para a adoção de tarifas variaram quase tanto quanto os próprios percentuais cobrados. Os seus assessores e o próprio presidente Donald Trump justificaram as medidas de diferentes maneiras: como instrumento temporário de negociação, arma econômica para enfrentar a China e estratégia para reformular o comércio e as finanças globais. Apesar das mudanças de discurso, um argumento seguiu constante: a ideia de que as tarifas promoveriam um ressurgimento da indústria manufatureira dos Estados Unidos. Ao anunciar o primeiro pacote de tarifas globais, Trump afirmou: “Empregos e fábricas voltarão com força total ao nosso país”.

A indústria dos EUA, no entanto, já vinha enfrentando dificuldades. A produção total está praticamente estagnada há quase duas décadas, enquanto o setor de serviços cresceu de forma acelerada — realidade que motivou filmes premiados e obras literárias marcantes, ademais de provocar insatisfação em todo o espectro político.

O país já atravessava uma recessão de dois anos no setor das manufaturas, quando Trump assumiu a presidência, em janeiro de 2025, segundo dados de negócios. O presidente prometeu reverter esse quadro. A lógica era direta: “Se você quer tarifa zero”, disse Trump, “fabrique seu produto aqui, nos Estados Unidos”.

Hyped machines Photograph: Getty Images

Um ano transcorrido, todavia, a prometida recuperação da indústria não se concretizou. A retração do setor chega ao terceiro ano consecutivo, e as fábricas continuam a cortar postos de trabalho; o emprego caiu 0,6% nos 12 meses até novembro. Mais do que não estimular a retomada há indícios de que as políticas de Trump estejam prejudicando vivamente o setor.

Aos juros elevados está ligada parte do problema. No início de 2023 a indústria dos EUA entrou em recessão, logo depois de o Federal Reserve elevar agressivamente as taxas para conter a inflação. O setor das manufaturas, que depende de equipamentos caros e não raro financiados por dívida, é de modo especial sensível a esse cenário. Embora Trump defenda uma política monetária mais flexível, os juros altos refletem, em grande medida, o crescimento econômico vigoroso e os grandes investimentos em inteligência artificial.

As intervenções de Trump, inobstante isso, não contribuíram para aliviar a situação. Os ataques à independência do Federal Reserve e os déficits elevados fizeram os títulos da dívida americana menos atraentes, encarecendo o crédito.

Ademais disso, as tarifas aumentaram a incerteza econômica. Isso representa um obstáculo relevante, para um setor que exporta quase um quarto de sua produção.

Produtos químicos usados em adesivos, revestimentos e plásticos automotivos, ingredientes farmacêuticos ativos, muitos desses insumos são importados pelos EUA.

Pesquisas indicam que, desde o anúncio das tarifas mais altas no chamado “Dia da Libertação”, em abril, os pedidos de exportação e os volumes de importação da indústria sofreram forte retração, além da fraqueza já existente. Donos de fábricas relatam dificuldades para planejar investimentos de longo prazo.

Um segmento destoou desse cenário: o de equipamentos de informática, especialmente semicondutores.

Com a expansão dos data centers a demanda por chips cresceu rapidamente. Não por acaso, esses componentes foram isentos das tarifas de Trump, observa Joseph Politano, da Apricitas Economics. Fora das tarifas “recíprocas” aplicadas a países específicos ficaram os semicondutores.

Controles de exportação destinados a limitar o acesso da China a chips avançados de inteligência artificial, rara concessão ao livre comércio que parece ter impulsionado o setor, também foram recentemente flexibilizados por Trump.

Algum alívio no ano que começa é o que esperam os fabricantes, mas isso pode não se concretizar. Casas de apostas indicam que a Suprema Corte pode se manifestar em breve contrariamente à parte das tarifas de Trump, o que provocaria nova reorganização turbulenta das alíquotas.

Além disso, o Acordo Estados Unidos–México–Canadá (USMCA) passará por revisão. O tratado tem protegido empresas dependentes de cadeias produtivas transfronteiriças do impacto mais severo das tarifas.

Trump pode optar por abandonar o acordo, mas uma renegociação tende a ser complexa. Diante desse cenário, não seria exagero que muitos empresários desejassem um governo menos empenhado em “ajudá-los”.