Escárnio
Explicação da mulher de Moraes sobre o contrato multimilionário com o
Master ofende a inteligência alheia. A PGR tem o dever de investigar as
suspeitas, mas, por ora, omite-se inexplicavelmente.
Por Notas & Informações
11/03/2026 | 03h00
2 min de leitura
Há
explicações que podem convencer um juiz. Outras talvez satisfaçam um cliente. E
há as que não parecem destinadas a convencer ninguém – apenas a testar até que
ponto o público tolera ser tratado como idiota. Após três meses de silêncio, a
nota divulgada pelo escritório da mulher e dos filhos do ministro Alexandre de
Moraes, do Supremo Tribunal Federal, para explicar o contrato com o Banco
Master pertence a essa categoria.
O Estadão consultou
13 advogados de bancas de elite e demonstrou que o contrato de R$ 129 milhões
do Barci de Moraes Advogados, que teria vigorado entre fevereiro de 2024 e
novembro de 2025 a uma remuneração mensal entre R$ 3,6 milhões e R$ 5,8
milhões, é absolutamente incompatível com o mercado. Mesmo adotando os preços
do topo, o conjunto de atividades descritas na nota – reuniões, pareceres,
revisão de políticas internas – dificilmente ultrapassaria R$ 7,8 milhões, no
total.
Honorários
superiores a R$ 100 milhões são raros e normalmente estão associados a disputas
fiscais ou operações societárias bilionárias envolvendo batalhões de advogados
e múltiplos escritórios. Os especialistas questionaram ainda o gabarito técnico
da banca dos Moraes nas áreas contratadas. Segundo apuração de O Globo,
nunca desmentida, apenas entre 2023 e 2024 o patrimônio da mulher do ministro
aumentou 232%, de R$ 24 milhões para R$ 79,7 milhões. Um fenômeno.
Ou Viviane
de Moraes se transformou repentinamente na mais disputada advogada do Brasil,
quiçá do mundo, ou todos os brasileiros estão autorizados a suspeitar que o
contrato comprou serviços inconfessáveis.
O negócio
compõe um mosaico de indícios: encontros pessoais entre o banqueiro Daniel
Vorcaro, dono do Master, e Alexandre de Moraes; mensagens interceptadas pela
Polícia Federal tratando de interesses do banco (incluindo no dia da prisão do
banqueiro); e contatos institucionais sensíveis, como com o Banco Central. Nada
disso, tomado isoladamente, é crime. Mas, no conjunto, esses indícios compõem
uma base objetiva que demanda investigação imediata. O mesmo vale para os
vínculos do ministro Dias Toffoli com estruturas financeiras ligadas a Vorcaro,
e suas decisões judiciais enquanto relator do caso Master.
Se fossem
aplicados nesse caso os mesmos critérios que Moraes usou em processos recentes,
o ministro estaria agora em sérios apuros. Moraes, por exemplo, já tratou o
apagamento de mensagens em celular como ocultação de provas. Agora, há indícios
de que o ministro tenha feito o mesmo com as mensagens trocadas com Vorcaro.
Uma vez que
os próprios ministros Moraes e Toffoli se recusam a expor tudo às claras, a
responsabilidade de dissipar – ou confirmar – as suspeitas caberia, antes de
tudo, ao Ministério Público. Mas também aqui os princípios são elásticos. Em
outros episódios, o procurador-geral, Paulo Gonet, amigo e apadrinhado de
Moraes, já demonstrou um zelo incomum – como no caso do empresário
ostensivamente investigado após supostamente hostilizar Moraes em um aeroporto,
ou do ex-assessor de Moraes que, após expor evidências de manipulações
processuais pelo ministro, ao invés de ser ouvido como testemunha, foi
convertido em réu. Compare essa urgência fulminante com a paciência quase
geológica no caso Master.
A percepção
é de que a aplicação da lei pode variar, entre sonolenta e draconiana, conforme
a posição institucional de quem está sob suspeita. Pela lógica constitucional,
o poder emana do povo, aqueles que o exercem estão a seu serviço e, como bons
funcionários, devem prestar contas de seus atos. Mas as autoridades togadas
invertem essa lógica e tratam o poder como se fosse coisa sua, e os cidadãos
como seus serviçais.
Pior do que
uma explicação implausível é a sensação de que ela foi formulada na expectativa
de que ninguém ousará questioná-la. Quando autoridades acreditam poder oferecer
versões que desafiam a aritmética e o senso comum sem sequer enfrentar uma
investigação, algo está profundamente pervertido na ordem republicana. O
ministro Alexandre de Moraes já demonstrou inúmeras vezes que seu respeito pela
lei é seletivo. Poderia ao menos respeitar a inteligência alheia.
Disponível em: www.estadao.com.br